Objetivos, Cenários e Realizações
Este tutorial foi escrito para ajudar o planejador a usar uma das partes mais poderosas da Rica: a modelagem de objetivos por meio de cenários e realizações.
Ao mesmo tempo, este é um dos blocos com maior curva de aprendizado da plataforma. Isso é normal. A proposta aqui não é reduzir a ferramenta a um formulário simples demais, e sim mostrar como ela pode modelar situações reais com muito mais precisão do que um planejamento estático.
A ideia central
Na Rica, você pode pensar assim:
- Objetivo: o que o cliente quer construir, preservar, resolver ou conquistar.
- Cenário: uma estratégia possível para aquele objetivo.
- Realização: uma peça operacional dentro do cenário, formada por:
- Resultado: o que precisa acontecer financeiramente.
- Processo: o caminho de manutenção ou acumulação para viabilizar esse resultado.
Em termos simples:
O resultado é a fotografia do que se quer atingir.
O processo é a engenharia de fluxo que torna isso possível.
Quando vale a pena usar essa modelagem
Esse esquema fica especialmente valioso quando o planejador quer sair do raciocínio genérico e passar a modelar decisões concretas, como:
- montar reserva para bancar uma licença profissional;
- acumular capital para comprar um imóvel à vista;
- planejar uma sequência de retiradas futuras;
- organizar um fluxo recorrente de aportes antes de uma aposentadoria;
- testar cenários alternativos para um mesmo sonho do cliente;
- separar o que é meta final do que é disciplina de execução.
Se a necessidade for apenas registrar uma intenção ampla, um objetivo simples pode bastar.
Se a necessidade for simular o caminho, a realização com resultado + processo passa a fazer muita diferença.
A curva de aprendizado existe, e isso é bom sinal
É importante alinhar expectativa com o planejador:
- no começo, é normal gastar alguns minutos a mais para entender o formulário;
- depois de algumas modelagens, a leitura fica natural;
- o ganho vem porque a Rica passa a capturar nuances que um planejamento superficial não consegue representar.
Em outras palavras: há curva de aprendizado, mas há também valor agregado real.
Se você conseguir responder com clareza estas duas perguntas, a modelagem costuma ficar boa:
- Qual é o evento econômico que eu quero produzir?
- Que fluxo recorrente sustenta esse evento ao longo do tempo?
Como pensar em Objetivo, Cenário e Realização
1. Objetivo
O objetivo é o contêiner da conversa de planejamento.
Exemplos:
- Comprar apartamento
- Construir reserva de transição de carreira
- Organizar aposentadoria complementar
- Financiar intercâmbio do filho
- Proteger padrão de vida na aposentadoria
2. Cenário
O cenário é uma hipótese de execução.
Para um mesmo objetivo, você pode ter:
- Cenário conservador
- Cenário acelerado
- Cenário com venda de ativo
- Cenário sem venda de ativo
- Cenário com maior aporte mensal
3. Realização
A realização é a modelagem concreta dentro daquele cenário.
Ela divide o raciocínio em duas partes:
- Resultado
- Processo
Essa separação é muito importante porque, na vida real, querer uma coisa e financiar essa coisa são problemas diferentes.
Entendendo o Resultado
O resultado representa o acontecimento financeiro que o planejador quer ver materializado.
Dependendo do tipo de lançamento escolhido, ele pode significar coisas diferentes:
- Saída: dinheiro que precisará ser consumido, retirado ou desembolsado.
- Entrada: dinheiro que deverá entrar.
- Investimento: capital que será acumulado em um ativo ou patrimônio.
- Provisão: reserva construída para um uso futuro específico.
Exemplos de resultado
Exemplo 1. Curso no exterior
- Nome do resultado:
Curso internacional - Tipo:
Saída - Valor por ocorrência:
R$ 15.000 - Ocorrências:
1
Leitura: haverá um desembolso futuro de R$ 15.000.
Exemplo 2. Renda temporária durante uma transição
- Nome do resultado:
Licença profissional - Tipo:
Saída - Valor por ocorrência:
R$ 6.000 - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
12
Leitura: o cliente quer sustentar 12 meses de saídas de R$ 6.000.
Exemplo 3. Formação de patrimônio
- Nome do resultado:
Capital para apartamento - Tipo:
Investimento - Valor por ocorrência:
R$ 20.000 - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
24
Leitura: o resultado não é consumo. É uma construção de capital ao longo do tempo.
Exemplo 4. Reserva tributária
- Nome do resultado:
Reserva IR anual - Tipo:
Provisão - Valor por ocorrência:
R$ 1.500 - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
12
Leitura: trata-se de uma reserva organizada, não de uma despesa definitiva no presente.
Entendendo o Processo
O processo é o fluxo que viabiliza o resultado.
Ele pode ser:
- uma sequência de aportes;
- uma rotina de provisões;
- uma disciplina de entradas;
- em alguns casos, até uma sequência de saídas estrategicamente planejadas.
Se o resultado responde “o que eu quero obter?”, o processo responde:
“como esse capital ou esse efeito econômico será construído ao longo do tempo?”
Exemplo intuitivo
Pense em um cliente que quer ter R$ 120 mil para entrada de um imóvel.
- Resultado: capital desejado
- Processo: quanto ele terá que aportar por mês para chegar lá
A lógica de Resultado + Processo
Essa é a parte mais importante do tutorial.
Resultado
O resultado expressa o alvo.
Processo
O processo expressa a trajetória.
Essa separação permite modelagens que ficam muito mais próximas da vida real:
- o cliente quer viajar daqui a 18 meses;
- o cliente quer sustentar 24 meses de renda complementar;
- o cliente quer acumular um capital e depois deixá-lo rendendo;
- o cliente quer formar uma provisão e depois convertê-la em consumo.
Sem essa separação, o planejador mistura objetivo final com disciplina operacional. Com essa separação, a conversa fica muito mais clara.
O novo campo: Critério de Acúmulo
O processo agora possui um campo conceitual chamado Critério de Acúmulo.
Ele existe porque nem sempre o processo deve perseguir o mesmo tipo de alvo.
As opções são:
- Manual
- Atingir principal
- Atingir saldo projetado
- Atingir capital necessário
Como interpretar cada critério
Manual
O planejador define livremente o valor por ocorrência do processo.
Use quando:
- você quer testar uma contribuição fixa já conhecida;
- o cliente já decidiu o valor mensal que aceita aportar;
- a pergunta da reunião é “onde isso me leva?”, e não “quanto preciso aportar?”.
Exemplo:
- “O cliente consegue aportar R$ 1.200 por mês. Vamos ver onde isso chega em 36 meses.”
Atingir principal
O processo mira o principal bruto do resultado, sem depender do saldo final projetado daquele resultado.
Use quando:
- o resultado é um investimento ou provisão;
- o planejador quer atingir um montante nominal;
- o foco é “juntar o principal”.
Exemplo:
- “Quero juntar R$ 80 mil para a entrada do imóvel.”
Atingir saldo projetado
O processo mira o saldo final projetado do resultado, já considerando a dinâmica daquele resultado.
Use quando:
- o resultado tem uma lógica própria de acumulação;
- o planejador quer replicar exatamente o saldo final do resultado;
- o tipo do resultado já embute crescimento ao longo do tempo.
Exemplo:
- “Quero que o processo gere exatamente o patrimônio projetado do resultado de investimento.”
Atingir capital necessário
O processo mira o capital necessário para bancar um resultado do tipo saída.
Use quando:
- o resultado é uma sequência de retiradas ou gastos;
- o objetivo é calcular o colchão necessário para sustentar essas saídas;
- o processo precisa formar a reserva antes da fase de uso.
Exemplo:
- “Quanto preciso aportar para bancar 18 meses de retirada de R$ 5.000?”
Regra prática para escolher o critério
Na maioria dos casos:
- Resultado do tipo Saída → use
Atingir capital necessário - Resultado do tipo Investimento → comece por
Atingir principal - Resultado do tipo Provisão → comece por
Atingir principal - Resultado do tipo Entrada → em geral, use
Manual
Isso não é uma regra rígida. É uma boa heurística inicial.
Exemplos completos de modelagem
Exemplo 1. Reserva para ano sabático
Objetivo
Ano sabático com tranquilidade
Cenário
Licença em 24 meses
Resultado
- Nome:
Renda do ano sabático - Tipo:
Saída - Valor por ocorrência:
R$ 7.000 - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
12 - Data de início: janeiro de 2029
Processo
- Nome:
Formação da reserva do ano sabático - Tipo:
Investimento - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
24 - Taxa:
0,70% ao mês - Critério de acúmulo:
Atingir capital necessário
Leitura
Aqui o resultado é o uso do dinheiro.
O processo é a acumulação prévia para viabilizar esse uso.
Esse é o uso mais clássico do esquema resultado + processo.
Exemplo 2. Entrada de imóvel
Objetivo
Compra do primeiro apartamento
Cenário A
Entrada em 36 meses
Resultado
- Nome:
Capital de entrada - Tipo:
Investimento - Valor por ocorrência:
R$ 120.000 - Frequência:
Não recorrente - Ocorrências:
1
Processo
- Nome:
Aportes para a entrada - Tipo:
Investimento - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
36 - Taxa:
0,80% ao mês - Critério de acúmulo:
Atingir principal
Leitura
Neste caso, o planejador quer chegar a um montante definido. O resultado não é uma despesa parcelada; é um capital-alvo. Por isso, Atingir principal costuma fazer mais sentido do que Atingir capital necessário.
Exemplo 3. Previdência complementar com duas estratégias
Objetivo
Renda complementar na aposentadoria
Cenário A
Acumulação disciplinada
Resultado
- Nome:
Patrimônio previdenciário - Tipo:
Investimento - Valor por ocorrência:
R$ 3.000 - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
240
Processo
- Nome:
Aportes para previdência - Tipo:
Investimento - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
240 - Taxa:
0,75% ao mês - Critério:
Atingir saldo projetado
Cenário B
Aporte fixo possível hoje
Processo
- Critério:
Manual - Valor por ocorrência:
R$ 1.500
Leitura
Aqui os dois cenários respondem perguntas diferentes:
- no primeiro: “quanto precisaria ser aportado para alcançar o objetivo?”
- no segundo: “o que acontece se aportarmos o que cabe hoje?”
Esse é exatamente o tipo de versatilidade que torna a modelagem poderosa.
Exemplo 4. Reserva para imposto anual
Objetivo
Evitar aperto no ajuste anual
Cenário
Provisão mensal
Resultado
- Nome:
Pagamento do ajuste - Tipo:
Saída - Valor:
R$ 18.000 - Frequência:
Não recorrente - Ocorrências:
1
Processo
- Nome:
Provisão mensal para IR - Tipo:
Provisão - Frequência:
Mensal - Ocorrências:
12 - Taxa:
0% - Critério:
Atingir capital necessário
Leitura
Mesmo sem juros, a separação continua útil:
- o resultado mostra o evento;
- o processo mostra a disciplina.
Exemplo 5. Ativo que ficará sem movimentação
Esse caso costuma gerar dúvida, e é importante porque mostra a versatilidade do sistema.
Imagine que o planejador quer modelar um capital que será construído e depois ficará rendendo sem saques imediatos.
Resultado
- Tipo:
Investimento - nome:
Capital base do projeto
Processo
Você pode escolher entre duas abordagens:
- Manual, se já sabe quanto quer aportar por período;
- Atingir principal, se quer descobrir o aporte necessário para chegar ao principal;
- Atingir saldo projetado, se quer que o processo replique o saldo econômico do resultado.
Isso permite modelar:
- capital para futura sociedade;
- reserva patrimonial estratégica;
- caixa para compra de oportunidade;
- patrimônio que ficará intocado por um período.
Como decidir o tipo do Resultado
Uma boa pergunta é:
No fim da história, esse dinheiro será consumido, acumulado, reservado ou recebido?
Use assim:
- Saída quando o resultado representa uso ou retirada;
- Investimento quando representa construção de capital ou ativo;
- Provisão quando representa uma reserva com destinação futura;
- Entrada quando o objetivo é modelar um fluxo futuro de receitas.
Como decidir o tipo do Processo
Outra pergunta útil:
Que tipo de fluxo o cliente realmente fará para sustentar o objetivo?
Exemplos:
- se vai guardar dinheiro regularmente, o processo tende a ser
InvestimentoouProvisão; - se vai receber parcelas contratadas, pode ser
Entrada; - se vai arcar com desembolsos intermediários, pode até ser
Saída.
Isso é importante: o processo não precisa ter o mesmo tipo do resultado.
Boas práticas para modelar bem
1. Dê nomes que ajudem na leitura
Em vez de:
Objetivo 1Cenário AResultado
Prefira:
Transição para consultoria própriaReserva em 18 mesesRenda da transição
2. Use cenários para comparar estratégias, não para duplicar trabalho sem necessidade
Vale criar cenários diferentes quando muda:
- prazo;
- taxa esperada;
- capacidade de aporte;
- uso de venda de ativo;
- grau de agressividade da estratégia.
3. Comece simples
Se o caso estiver confuso:
- modele primeiro só o resultado;
- entenda o alvo;
- depois adicione o processo.
4. Use o modo manual quando a conversa estiver limitada à capacidade atual do cliente
Esse ponto é muito importante em reunião:
Manualajuda a responder “o que acontece com o que cabe hoje?”;- critérios automáticos ajudam a responder “quanto seria necessário fazer?”.
Essas são perguntas diferentes, e ambas são úteis.
Erros comuns de modelagem
Confundir resultado com processo
Erro:
- colocar no resultado aquilo que na verdade é a rotina de aporte.
Correção:
- resultado = alvo;
- processo = trajetória.
Usar Saída quando o caso é formação de patrimônio
Erro:
- modelar entrada de imóvel como saída parcelada.
Correção:
- se o objetivo é juntar capital, normalmente o resultado faz mais sentido como
Investimento.
Travar tudo no automático quando a conversa pede teste livre
Erro:
- insistir em cálculo automático quando o cliente quer comparar “o que consigo fazer” com
R$ 800,R$ 1.200ouR$ 2.000por mês.
Correção:
- use
Manual.
Um roteiro simples para usar em reunião
Você pode conduzir a modelagem assim:
- Qual é o objetivo do cliente?
- Existe mais de um cenário plausível?
- Qual é o evento econômico final que queremos modelar?
- Esse evento é uma saída, entrada, investimento ou provisão?
- Qual fluxo sustentará esse evento?
- O processo deve ser livre ou deve perseguir um alvo automático?
Esse roteiro reduz a complexidade e ajuda o cliente a acompanhar a lógica do planejamento.
O grande valor da modelagem
O verdadeiro ganho não está só em preencher o formulário. O ganho está em transformar uma intenção vaga em uma estrutura financeira debatível.
Com esse modelo, o planejador consegue:
- comparar estratégias;
- mostrar custo de oportunidade;
- testar prazos diferentes;
- separar consumo de acumulação;
- discutir disciplina de aporte;
- transformar um sonho em engenharia financeira.
Esse é o motivo pelo qual a curva de aprendizado vale a pena.
Conclusão
Se você quiser resumir tudo em uma frase:
Objetivo é o “por quê”.
Cenário é o “qual caminho”.
Realização é o “como isso acontece financeiramente”.
E, dentro da realização:
Resultado mostra o alvo.
Processo mostra a manutenção, acumulação ou disciplina necessária para chegar lá.
Comece com casos simples. Depois evolua para modelagens mais ricas. Quanto mais você usar, mais natural ficará perceber que esse esquema não complica o planejamento; ele expande a capacidade de modelar a realidade.